Alergia Alimentar

Alergia Alimentar
28 de outubro de 2015
Dra. Renata Cocco, coordenadora do Grupo de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia CRM  89488

Dra. Renata Cocco, coordenadora do Grupo de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia
CRM 89488

Quer saber sobre alergia alimentar?

Confira a entrevista exclusiva com a Dra. Renata Cocco, coordenadora do Grupo de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia

         Embora não existam estatísticas oficiais é possível afirmar que os casos de alergia alimentar estão aumentando. E o que estaria por trás desse crescimento?

         Para responder essa e outras questões, convidamos Renata Cocco, Doutora em Ciências Médicas e Pesquisadora Associada à Disciplina de Alergia e Imunologia Clínica da Universidade Federal de São Paulo, pediatra do Hospital Israelita Albert Einstein e coordenadora do Grupo de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (SBAI).

         Veja, a seguir, a entrevista:

- O que é alergia alimentar?

É uma resposta anormal do sistema imunológico frente a proteínas presentes em alguns alimentos. Indivíduos geneticamente predispostos reconhecem alguns componentes proteicos como corpos estranhos, o que acarreta a produção de uma série de mediadores inflamatórios responsáveis por reações clínicas.

Os principais mecanismos imunológicos incluem a presença de imunoglobulinas específicas do tipo E (IgE), relacionadas a sintomas imediatos, e os linfócitos T, envolvidos nas manifestações mais tardias da alergia.

 - Qual a diferença entre alergia alimentar e intolerância?

Conforme mencionado, as alergias são reações que envolvem o sistema imunológico contra proteínas alimentares. As intolerâncias podem causar sintomas semelhantes, mas não são mediadas por imunoglobulinas ou linfócitos. A maior parte das intolerâncias decorre por um defeito na digestão de carboidratos (açúcares), como é o caso da intolerância à lactose. Indivíduos com baixa produção da enzima lactase, responsável pela digestão da lactose (principal açúcar do leite) apresentam sintomas gastrintestinais consequentes ao excesso de lactose no cólon, ocasionando distensão abdominal, flatulência e diarreia, de intensidade variável.

- Quais são os principais alimentos capazes de causar alergia?

Existe um grupo de 8 alimentos responsáveis por até 90% das alergias alimentares: leite, ovo, soja, trigo, amendoim, castanhas, peixes e frutos do mar. No entanto, esta lista pode ser acrescentada por outros alimentos consumidos em diferentes regiões geográficas e de acordo com os hábitos inerentes a cada população.

No Brasil, o milho aparece como uma importante fonte de sensibilização, devido ao seu alto consumo. Da mesma forma, frutas como banana, mamão e kiwi respondem por alguns casos de alergias na infância.

Em tese, qualquer alimento pode ser potencialmente alergênico, mas as características estruturais das proteínas, sua estabilidade em altas temperaturas e processos digestivos e a forma como são processados para o consumo são alguns dos fatores que permitem que alguns alimentos sejam mais alergênicos do que outros.

- Quais são os sintomas relacionados à alergia alimentar? Porque a pele costuma apresentar sinais de alergia e em alguns casos ocorrem sintomas respiratórios?

As manifestações são individuais e variáveis e não é possível predizer qual será o órgão acometido ou a intensidade das reações. Reações mediadas pela IgE são tipicamente imediatas (segundos ou poucas horas após a ingestão do alimento) e conferem um caráter mais grave, especialmente quando os tratos respiratório e/ou cardiovascular são acometidos.

 Outras manifestações dessa natureza envolvem a pele (urticárias, inchaço de olhos e boca) e o trato gastrintestinal (vômitos e diarreia imediatos). Os linfócitos T estimulam reações tardias, em horas ou até dias após a ingestão dos alimentos responsáveis (geralmente mais do que um) e compreendem principalmente sintomas no trato gastrintestinal (diarreia com ou sem sangue e muco, vômitos) e diminuição da velocidade de ganho de peso e estatura.

- As alergias alimentares sempre se manifestam nos primeiros meses de vida? É possível desenvolver alergias alimentares com o passar dos anos?

Elas são mais frequentes na infância, mas podem ter início em qualquer idade. A principal diferença é o alimento responsável pelas reações: leite, ovo, soja e trigo são mais comumente observados na infância, enquanto que alergia a amendoim, castanhas, peixes e frutos do mar podem aparecer também na idade adulta.

As alergias iniciadas na infância apresentam caráter transitório, com remissão ainda na primeira década de vida, alergias de início mais tardio são tipicamente persistentes.

 - Que tipo de sinal é comum na alergia alimentar entre os bebês? Porque as fezes apresentam sangue?

Várias podem ser as manifestações de alergia em lactentes. De forma geral, os sintomas aparecem por volta dos 6 meses de vida, época em que a mãe deixa a licença maternidade e muitas vezes o leite materno é complementado ou substituído por fórmulas infantis. A depender da predisposição genética, a criança poderá apresentar sintomas imediatos ou tardios. Neste último caso, a depender do local mais acometido pela inflamação, a alergia pode ser avaliada pela presença de vômitos (esôfago), queda no ganho de peso e estatura (duodeno) ou sangue nas fezes (cólon).

Existem alguns casos em que os sintomas ocorrem ainda quando o lactente se encontra em aleitamento materno exclusivo, justificando a restrição de alguns alimentos pela mãe nutriz.

 - Os casos de alergia alimentar estão aumentando entre as crianças? Qual seria o motivo desse crescimento?

Apesar de não haver dados estatísticos nacionais sobre a prevalência das alergias alimentares, a percepção clínica é que houve um grande aumento dos casos diagnosticados nas últimas décadas.

Entre as hipóteses que explicariam este aumento, destaca-se a epigenética, isto é, a influência do meio ambiente como adjuvante à predisposição genética. Entre os fatores externos, destacam-se as alterações de hábitos alimentares e de vida, especialmente na gestante, incluindo consumo exagerado de gorduras do tipo ômega-6 (manteigas, óleos), diminuição da ingestão de frutas e legumes (ricos em antioxidantes), sedentarismo e síndromes metabólicas. Consequentemente haveria o aumento de radicais livres (estresse oxidativo), levando a um estado de inflamação constante e alteração da microbiota intestinal. Além disso, o aumento no número de cesarianas e diminuição do tempo de aleitamento materno seriam fatores agravantes nesse processo.

 - O leite e o trigo têm aparecido como grandes desencadeadores de alergia alimentar nos últimos tempos. O que há por trás disso?

Entre os alérgenos alimentares na infância, o leite de vaca responde como o principal vilão, por ser o primeiro alimento a ser introduzido na dieta do lactente, como substituto ou complemento do leite materno. Alergia ao leite na idade adulta é extremamente rara, ao contrário da intolerância à lactose.

Quanto ao trigo, não se pode afirmar com exatidão que os casos de alergia estão aumentando. A grande confusão observada envolve erros conceituais quanto aos problemas com o glúten – uma das proteínas encontradas no trigo –  e responsável por outro tipo de doença: a doença celíaca. Os mecanismos são bem distintos entre as doenças, bem como os instrumentos diagnósticos e a história natural.

Além disso, o alérgico a trigo pode tolerar outros alimentos que contenham glúten, como a aveia, o centeio e a cevada, que são completamente proibidos nos pacientes diagnosticados com doença celíaca.

 

 - Existe alguma maneira de prevenir as alergias alimentares?

         Não existe ainda um consenso sobre a prevenção das doenças alérgicas, entre elas as alergias alimentares. No entanto, existem algumas evidências sobre orientações gerais que poderiam minimizar o desenvolvimento da doença:

  1. Alimentação na gestante/nutriz: ao contrário do que se falava há alguns anos, não existe qualquer benefício em se retirar alimentos da dieta da gestante ou nutriz como forma de prevenir alergias na criança. O que se deve fazer é estimular uma alimentação balanceada e nutritiva, rica em ômega-3 (peixes), frutas e legumes.
  1. Aleitamento materno: de acordo com a Organização Mundial de Saúde, preconizado de forma exclusiva até os 6 meses e complementado com alimentos sólidos até 2 anos ou mais.
  1. Na impossibilidade de aleitamento materno, fórmulas especiais extensamente ou parcialmente hidrolisadas são preferíveis àquelas do tipo poliméricas no primeiro semestre de vida.
  1. Alimentos sólidos devem ser introduzidos da forma convencional, seguindo os protocolos regionais de puericultura.

- Por fim, qual o tratamento e quais são as novidades?

O único tratamento definitivo até o momento é a restrição dos alimentos responsáveis da dieta do paciente alérgico. A eliminação correta dos alérgenos envolve leitura de rótulos dos produtos industrializados, cuidados com produtos de estabelecimentos comerciais, restaurantes, escolas e refeições cujos ingredientes não sejam conhecidos.

Tão importante quanto restringir é substituir com opção nutricionalmente adequada para que não haja prejuízos no crescimento e desenvolvimento da criança. Fórmulas especiais de proteínas extensamente hidrolisadas e de aminoácidos livres são as únicas hipoalergênicas e passíveis de serem utilizadas no primeiro semestre de vida e adequadas até os 2 anos, de acordo com a necessidade individual. Fórmulas de soja podem ser uma opção plausível a partir dos 6 meses, desde que não haja comprometimento gastrintestinal.

Leites de arroz, aveia, amêndoas e outras castanhas apresentam pobre valor nutricional e, devido a altas quantidades de arsênico inorgânico, manganês e alumínio, podem levar a toxicidade se utilizados como substitutos únicos do leite de vaca. Não devem ser utilizadas no primeiro ano de vida; após esta idade, quantidades moderadas ou em preparações culinárias são aceitas.

         É imprescindível o monitoramento adequado de proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais em qualquer dieta de restrição. A suplementação com polivitamínicos e cálcio pode ser necessária nos casos onde a dieta não supra as necessidades nutricionais.

         Existem diversas linhas de pesquisa em andamento envolvendo imunoterapias e dessensibilização que poderão auxiliar no tratamento das alergias alimentares. Até o momento, no entanto, não há qualquer manejo clínico além das dietas de restrição que possa ser utilizado na prática clínica.

Postado em Entrevistas por Aby Tosatti | Tags: