Sobre a responsabilidade de comunicar em nutrição, confira entrevista exclusiva com a professora Sonia Tucunduva Philippi

Sobre a responsabilidade de comunicar em nutrição, confira entrevista exclusiva com a professora Sonia Tucunduva Philippi
6 de janeiro de 2016
Profa Dra Sonia Tucunduva Philipp CRN-3 77

Profa Dra Sonia Tucunduva Philipp
CRN-3 77

Com a ascensão da área de nutrição em nosso país e o crescente interesse pelo assunto entre o público leigo, é preciso ter muita cautela para veicular informação.

Para falar sobre o assunto convidamos a Doutora Sonia Tucunduva Philippi, docente e pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Veja, a seguir, a entrevista:

- Vivemos em uma época em que a nutrição está entre os assuntos mais comentados e aparece em muitas capas de revistas e programas de TV. Por que o assunto ganhou os holofotes nos últimos anos? Como era a nutrição antes dessa onda?

A nutrição ganhou dimensões expressivas devido ao aumento das instituições de ensino. Em 1995 haviam 4816 nutricionistas e hoje já contamos com mais de 30 mil. Atualmente temos 453 cursos no Brasil sendo que 120 encontram-se no estado de São Paulo.

Com o número crescente de nutricionistas, principalmente nos grandes centros e, também, com o aumento da prevalência das Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT), o assunto ganha mais espaço e passa a fazer parte da pauta de discussão sobre os fatos que determinam tais enfermidades.

 

- A senhora acredita que tanta informação pode acabar deixando as pessoas confusas sobre o que é alimentação saudável?

As mídias sociais contribuem para a disseminação das informações de qualquer natureza.

Com relação a alimentação e nutrição as notícias disseminadas por leigos, sem evidências científicas e sem os devidos cuidados, contribuem para criar versões diferentes sobre um mesmo assunto. Acredito que assuntos polêmicos, se não abordados cientificamente, podem trazer confusão e ridicularizar as informações.

Um dos exemplos clássicos é o ovo que foi proibido e depois, com novas pesquisas, regenerado. A dieta saudável é constantemente bombardeada como alimentos da moda.

 

- Muitas vezes as reportagens são pautadas por estudos que nem sempre são contundentes. O que é importante verificar antes de propagar pesquisas? O que é determinante para que um estudo seja considerado sério e bem feito?

As pesquisas conduzidas dentro de um padrão e de um rigor metodológicos com certeza terão seus resultados publicados em periódicos nacionais ou internacionais e discutidos em eventos científicos.

E para que isso aconteça esses estudos são avaliados pelos pareceristas das revistas e, antes da aprovação final e publicação, passam por inúmeras revisões. Nos eventos os trabalhos inscritos também passam por comitê científico e quando aprovados são apresentados à comunidade científica.

Assim mesmo, com todos esses cuidados,  os artigos científicos podem ter seus resultados disseminados de forma inadequada, ocasionando distorções no entendimento.

 

- O que a senhora acha da “demonização” de determinados alimentos/nutrientes? E, por outro lado, qual a sua opinião sobre o modismo em relação a alguns alimentos?

Classificar a comida em categorias não é a maneira mais adequada de orientar os indivíduos sobre a melhor forma de se alimentar.

A demonização ou glorificação de ingredientes, como os óleos ou grãos, pode estigmatizar certos itens levando a modificações nos padrões alimentares e prejuízos para a saúde.

As novidades e esses modismos são temporários. Os indivíduos devem ser esclarecidos sobre as propriedades nutritivas dos alimentos, dentro do contexto sociocultural onde vivem.

 

- Qual a sua opinião sobre as dietas que estampam muitas capas de revistas? A senhora acredita que esse tipo de matéria pode ser perigosa e impulsionar danos à saúde?

As pessoas precisam de novidades dentro da sua rotina e com os alimentos essa situação não é diferente.

As revistas, programas de TV e a internet propagam matérias sobre dietas, que quase sempre não possuem evidências científicas suficientes, levando as pessoas a buscarem resultados rápidos e milagrosos.

Os grupos mais vulneráveis são susceptíveis a danos à saúde.

 

- A senhora poderia comentar o chamado “terrorismo nutricional”? Existe algum movimento para combatê-lo? 

A tendência é ter um olhar mais amplo sobre os fatores socioculturais determinantes e que levam as pessoas a escolherem os alimentos.

Os aspectos cognitivos e comportamentais devem ser considerados para uma intervenção mais efetiva e para a adesão a uma dieta saudável.

Os ingredientes que costumam ser alvo do terrorismo nutricional fazem parte do ambiente e das práticas alimentares e isso precisa ser considerado.

Aspectos quantitativos, como a necessidade de porções diminuídas e menor participação dos alimentos denso-energéticos distribuídos nas refeições do dia, devem ser exaustivamente comunicados para que haja o equilíbrio necessário.

Às vezes a demonização ou classificações inadequadas podem levar a confusões entre os próprios profissionais da área da saúde.

Por exemplo, existem apresentações - tanto em eventos científicos nacionais, quanto internacionais - de alguns profissionais sobre o novo Guia Alimentar com um slide mostrando um X no ícone da pirâmide alimentar. Eles demonstram o desrespeito e a desconstrução de trabalhos científicos por mim publicados e utilizados por nutricionistas e equipes multidisciplinares de saúde ao longo dos últimos anos.

Em suas falas, esses profissionais atribuem aos grupos alimentares da pirâmide a culpa pelos problemas de obesidade no Brasil e apresentam a classificação equivocada de alimentos processados e outros como a salvação dos problemas nutricionais. A ciência é democrática e oferece lugar a todos.

Essa classificação dos alimentos, de acordo com o grau de processamento, é inadequada levando a confusões na população sobre hábitos alimentares consagrados como comer a mistura arroz com feijão.

 

- E, por fim, o que a senhora espera para o futuro?

Todos aqueles que trabalham com nutrição e alimentação devem ter a responsabilidade e a ética de comunicar e orientar os indivíduos e as populações sobre todos os aspectos de uma alimentação saudável.

Utilizar as mídias sociais e todos os recursos disponíveis, como instrumentos capazes de contribuir para a saúde dos indivíduos, é interessante.

Postado em Entrevistas por Aby Tosatti | Tags: