Sobre alergia na infância

Sobre alergia na infância
2 de outubro de 2015
Dr. Bruno Paes Barreto CRM 6014 (PA)

Dr. Bruno Paes Barreto
CRM 6014 (PA)

Confira entrevista com o Dr. Bruno Paes Barreto, pediatra, alergista e imunologista

         Grande causa de preocupação para as mães, os casos de alergia entre a molecada estão aumentando. O problema tem relação com proteínas e ocorre quando o sistema imunológico passa a enxergar tais substâncias como uma espécie de ameaça. Ocorre, então, uma resposta exagerada do organismo e surgem diversos sintomas.

         Para falar sobre o assunto, convidamos o Dr. Bruno Paes Barreto, pediatra, alergista e imunologista, professor da Universidade do Estado do Pará e membro da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, ASBAI.

         Veja, a seguir, a entrevista exclusiva:

Quais são as alergias mais frequentes entre as crianças?

É possível dizer que existe uma tendência, logo nos primeiros anos de vida, para as alimentares. E essas alergias costumam se manifestar com sintomas gastrintestinais, mas também podem aparecer sinais cutâneos, como a dermatite e, ainda, tosse, chiado e coriza.

Por que as alergias alimentares costumam ser mais frequentes?

Geralmente pelo contato com proteínas estranhas ao organismo, que podem provocar sensibilizações em decorrência de uma imaturidade intestinal. É por isso que nos prematuros a chance de alergias alimentares é maior ainda.

O número de crianças com alergia está aumentando?

Sim, bastante, em uma proporção acima da taxa de crescimento populacional. Por essa razão, vários estudos epidemiológicos têm sido feitos. Entre os fatores por trás desse aumento estão o estilo de vida ocidentalizado, a dieta, o tipo de parto, a urbanização, entre outros.

 

As alergias têm relação com fatores hereditários?

Quando um dos pais é alérgico, a chance de o filho apresentar fica em torno de 50%. Se ambos forem, a taxa pode alcançar de 80 a 90%. E mesmo na ausência de hereditariedade direta, o risco para a população em geral está em torno de 20%.

 

As alergias surgem logo nos primeiros meses de vida? É possível que se manifestem mais tardiamente?

As duas situações são possíveis, o início precoce ou o aparecimento tardio. Algumas alergias são típicas da criança lactente, como a alergia a proteína do leite de vaca (APLV), onde os sintomas aparecem logo após os primeiros contatos com a proteína heteróloga, ou seja, com a substância estranha ao organismo.

 

Que tipo de sinal pode denunciar alergias?

As manifestações podem ser variadas e dependem do órgão-alvo. Na APLV, por exemplo, os sintomas vão desde manifestações gastrintestinais, como diarreia, regurgitação e sangramento nas fezes; até respiratórias, ou seja, tosse, chiado e cansaço; passando por sintomas na pele, caso da dermatite e do eczema.

Já para as respiratórias mais tradicionais, como a rinite alérgica, os sintomas também são clássicos, como os espirros persistentes, o prurido, isto é, a coceira, além de coriza e de obstrução nasal.

Como é feito o diagnóstico das alergias mais comuns?

As alergias clássicas podem ser mediadas por anticorpos, os quais podem ser detectados, por meio de testes na pele ou sanguíneos. No entanto, ambos os exames são mais confiáveis e precisos a partir do quarto ano de vida. O que não quer dizer que não possam ser feitos antes dessa idade, apenas sugere que, se forem feitos antes dos 4 anos e o resultado for negativo, esse fato não afasta a possibilidade de alergia.

 

É possível prevenir alergias?

Sim, sobretudo quando já se conhece a hereditariedade. Filhos de pais alérgicos terão uma chance maior de ter o problema. Assim, as estratégias de prevenção podem ser adotadas na gravidez e no pós-natal. A utilização de probióticos imunomoduladores durante a gestação costuma ser bem-vinda, já que eles favorecem o equilíbrio imunológico.

Também vale optar pelo parto normal e pelo aleitamento materno exclusivo por, no mínimo, seis meses. São atitudes simples, mas que estão deixando de acontecer nos últimos anos.

Muito se fala sobre a "teoria da higiene". Qual a opinião do senhor?

Eu particularmente acredito, pois, como imunologista, entendo a relação clara do sistema imunológico com fatores ambientais e microbiológicos que o modulam. O excesso de higiene é caracterizado por diminuição na quantidade de algumas infecções comuns da infância, pela redução do contato com microrganismos do meio ambiente e, ainda, pelo excesso no uso de antibióticos.

 

Embora existam fundamentos teóricos relevantes, a Hipótese da Higiene ainda apresenta lacunas que precisam ser melhor esclarecidas.

 

Por fim, sobre tratamento: quais são as novidades nesse sentido?

Novidades que revolucionem o tratamento das alergias ainda estão distantes. A descoberta do agente causador, com o afastamento do alérgeno, mantém-se como estratégia fundamental.

Novas moléculas para bases farmacológicas tradicionais sempre estão surgindo, como anti-histamínicos com menos efeitos colaterais, broncodilatadores de ação prolongada e corticosteróides tópicos mais seguros. Moléculas inéditas como inibidores de citocinas pró-inflamatórias já se encontram em estudos com humanos.

No campo da prevenção, a dessensibilização por meio de imunoterapia com melhores alérgenos e por outras vias, como a sub-lingual, tem aparecido com boas perspectivas.

Nos últimos anos, estratégias imunomoduladoras preventivas, como a utilização de probióticos para a grávida alérgica e para o lactente de risco, têm mostrado resultados interessantes com menores índices de alergia futura, sobretudo para dermatite atípica.

Postado em Entrevistas por Aby Tosatti | Tags: