Sobre o comer consciente e as festas de final de ano

Sobre o comer consciente e as festas de final de ano
17 de dezembro de 2015
Dra. Marle Alvarenga

Nutricionista Dra. Marle Alvarenga

Veja entrevista com a nutricionista Marle Alvarenga, do Grupo de Estudos em Nutrição, Transtornos Alimentares e Obesidade (Genta)

Na temporada de celebrações em torno da mesa, não é raro as pessoas se culparem pelos excessos alimentares e recorrerem a dietas da moda para tentar compensar os “deslizes”. Mas esse tipo de comportamento pode interferir com o prazer de comer e acabar com o clima das festas.

Para falar sobre o assunto, convidamos a nutricionista Marle Alvarenga, professora na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, coordenadora do Grupo de Estudos em Nutrição, Transtornos Alimentares e Obesidade (Genta) e idealizadora do movimento Nutrição Comportamental, uma abordagem científica e inovadora da nutrição, que inclui os aspectos fisiológicos, sociais e emocionais da alimentação

Confira a entrevista exclusiva:

 

 

A senhora poderia definir o conceito de comer consciente?

É prestar atenção ao ato de comer, dedicar-se às refeições de maneira que não haja distração.

Hoje observamos que é comum as pessoas se alimentarem de forma desatenta. Não é raro engolir a comida enquanto o indivíduo vê TV, trabalha no computador ou, simplesmente, observa as mídias sociais no celular. Infelizmente muitas famílias abandonaram certos rituais à mesa e, assim, esses maus hábitos tendem a começar já nos primeiros anos de vida.

E quais seriam os prejuízos relacionados a essas distrações?

Entre outras coisas a falta de atenção pode levar as pessoas a comerem porções maiores sem notar. Há evidências científicas de que o comer distraído interfere na percepção dos sinais internos de fome e saciedade, assim pode-se comer mais, mesmo sem fome, e não perceber a saciedade.

Nesse período de festas é possível comer de forma consciente?

Sim, nessas situações também dá para prestar atenção. Em vez de beliscar sem mensurar o quanto se está comendo, que tal colocar os petiscos em um prato e assim ter noção da quantidade? É apenas um exemplo entre tantos. Cabe dizer aqui que se trata de uma época diferenciada, um tempo de festividades e que só acontece uma vez por ano. Ou seja, não é hora de se preocupar com calorias, veja bem.

Por falar em calorias, poderia comentar a tendência de levar “marmitas de comida saudável/light” para as festas?

Tenho visto esse movimento e acredito que tem ligação com o lema “força, foco e fé” que costuma ser difundido por algumas blogueiras. Nesse contexto alguns alimentos são banidos em prol de emagrecimento, entre outras razões. Fique claro: a exclusão de certos ingredientes do cardápio é indicada somente para pacientes com doenças, caso dos celíacos ou daqueles que sofrem com intolerâncias.

Ainda é bom lembrar que a alimentação não deve ser pautada somente pelas questões biológicas. Fatores culturais e sociais precisam ser considerados, especialmente nesse tempo de celebrações familiares.

E quem foge das festas por causa dos ingredientes que compõem a mesa pode, inclusive, estar à beira da ortorexia nervosa. Esse transtorno alimentar é marcado por uma fixação pela alimentação saudável, nele a comida passa a ter um valor que não é real. Trata-se de uma questão bem complexa.

E sobre a culpa que pode surgir em relação às comilanças nessas festas?

É importante deixar claro que ninguém vai ficar mais ou menos saudável ou, ainda, se tornar obeso instantaneamente só porque participou de uma ceia de Natal. Quem se alimenta bem durante o ano todo, mesmo que cometa algum excesso nas festas, não vai por tudo a perder. Se o cotidiano é feito de equilíbrio, não vai haver mal algum em comer um pouco além da conta.

Inclusive chegar com culpa diante de uma mesa só faz aumentar a ansiedade, o que, por sua vez, pode interferir com os mecanismos de fome e saciedade, servindo de estopim para o exagero.

Uma estratégia para não se deixar cair nessa cilada é planejar o cardápio – sem neuras, que fique claro! Pense bem, será que realmente é necessário ter 25 tipos de assado ou 20 sobremesas diferentes? O planejamento anterior é bem-vindo e pode ser um grande aliado do prazer.

Há quem acredite que comer com prazer não combina com alimentação saudável. Poderia comentar?

É comum ver esse tipo de associação errônea. O prazer é visto como algo engordativo e a vida saudável como não prazerosa. Mas não é por aí.

Para visualizar essa questão, costumo mencionar a clássica comparação entre americanos e franceses. Os primeiros costumam ser cheios de privações, têm uma enorme variedade de produtos fat-free, low carb e, ainda assim, estão entre os povos mais obesos e propensos a males cardiovasculares do planeta. Já a população da França, em geral, procura satisfação ao comer, conta com maior flexibilidade e o cardápio é recheado de comida saborosa. Os franceses, por sua vez, destacam-se pela boa saúde e pela longevidade.

Qual a sua opinião sobre as dietas “detox” que prometem desintoxicar o organismo dos possíveis exageros cometidos nessa época?

Antes de mais nada é preciso salientar que o termo “detox” não faz sentido do ponto de vista científico e nem deveria ser aplicado a planos alimentares ou ingredientes. A desintoxicação é um mecanismo natural do nosso organismo, sendo que o fígado é um dos órgãos responsáveis pelo processo de eliminação de impurezas. Inclusive o Conselho Federal de Nutricionistas acaba de publicar um parecer sobre o assunto. (Clique aqui para ver http://www.cfn.org.br/index.php/dieta-detox-nota-tecnica-do-cfn/)

E, por fim, o que acha das dietas milagrosas que surgem especialmente agora às vésperas do verão? A senhora acredita que elas podem impulsionar transtornos alimentares?

São modismos que sempre surgem nesta época para vender revistas, livros e falsos milagres. Também é comum ver muita gente tentando “compensar” os excessos das festas com dietas restritivas. Ninguém precisa se punir, basta apenas cortar o exagero e voltar para o cardápio normal, aquele do cotidiano mesmo – ou seja, se houve um consumo maior de álcool, doces, frituras no dia anterior, vale tirar apenas isso do dia seguinte e não os alimentos usuais.

Aliás, se houver uma redução de calorias muito drástica, o metabolismo tende a diminuir, o que favorece o acúmulo de gordura no corpo. Nosso organismo não funciona numa lógica exatamente “matemática”.

Sobre o elo com os transtornos alimentares pode haver relação se o indivíduo já apresenta uma predisposição para esse tipo de doença. A compensação é um comportamento clássico dos quadros.

 

Para saber mais sobre ortorexia, confira o estudo:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-52732011000200015

Márcia Cristina Teixeira Martins; Marle dos Santos Alvarenga; Sílvia Viviane Alves Vargas; Karen Sayuri Cabral de Jesus Sato; Fernanda Baeza Scagliusi, Ortorexia nervosa: reflexões sobre um novo conceito, Revista de Nutrição, vol.24 no. 2 Campinas Mar./Apr. 2011

Postado em Entrevistas por Aby Tosatti | Tags: