Sobre obesidade em tempos de crise

Sobre obesidade em tempos de crise
7 de abril de 2016
Crédito da Foto: Freeimages

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Há algumas décadas, quando a taxa de obesidade começou sua ascensão, notávamos que parte da população estreou em uma exagerada predileção por alimentos de alto teor calórico em detrimento de itens mais equilibrados do ponto de vista nutricional.  Esse movimento era mais prevalente no grupo de maior poder aquisitivo.

De uns anos para cá, entretanto, começamos a observar que uma parcela da população de nível socioeconômico mais baixo também passou a privilegiar produtos de valor altamente energético – e que garantem maior rendimento. O resultado dessas escolhas ficou nítido e se refletiu nas taxas de sobrepeso que foram ficando cada vez mais altas entre esses indivíduos.

Atualmente, diante dos inúmeros trabalhos que apontam uma relação entre o excesso de peso e comorbidades que vão de danos emocionais até doenças cardiovasculares, despertou-se uma grande preocupação em vários setores da sociedade. E, justamente pelo acesso à informação, hoje a classe de maior poder aquisitivo começa a selecionar melhor os alimentos e tem optado por um cardápio com menor quantidade de calorias.  Essa dinâmica, porém, ainda não impactou no número de casos de obesidade no país, até porque não observamos essa movimentação em todas as camadas da população.

Aliás, um estudo recém-divulgado, o ISA-Capital 2015, financiado pela Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo e realizado por pesquisadores da USP, UNICAMP e UNESP, além da FAPESP, CNPq e CAPES, revela que a prevalência de excesso de peso saltou de 38% em 2003 para 49,7% agora em 2015.

 Infelizmente com o aumento da inflação, sobretudo em relação aos preços de hortifrútis e outras opções de baixa densidade energética, muitos ingredientes não constam da lista de compras de determinados grupos. Dados do IBGE revelam que as hortaliças subiram 519% desde 1994.

Uma sugestão para esses tempos de crise é a de, sempre que possível, ir para as feiras livres que costumam oferecer uma variedade grande de vegetais da época e onde é possível encontrar, costumeiramente, bons preços. Aliás, é um excelente passeio com crianças para estimular desde cedo o conhecimento em relação aos diferentes tipos de verduras e frutas.

Por falar em infância, sempre que a pauta é obesidade temos que ressaltar o papel do sedentarismo. Embora existam frentes para o estímulo à prática de exercícios para a criançada, ainda há muito que se fazer. As aulas de educação física precisam passar por algumas reformulações e figurar para valer no currículo escolar. Observamos que muitas escolas não têm sequer uma quadra apropriada. Além disso, os horários para essas aulas ficam apertados em meio ao restante da grade e, dependendo dos exercícios, a criança fica cansada e toda suada. Banheiros para um mínimo de higiene pós-aula seriam bem-vindos. Mas, obviamente, a realidade de alguns prédios não contempla essa necessidade. Pra completar, muitas vezes, o que se vê é uma grande cobrança para que o aluno desempenhe as funções que não são aquelas com as quais ele tem afinidade. É preciso levar em conta que existem, sim, perfis de atletas, mas, por outro lado, há quem não tenha a mínima vocação para ser jogador de futebol. Ao ignorar essas diferenças ocorre um favorecimento ao desestímulo o que faz crescer a chamada indústria de atestados.

Embora o cenário não seja dos melhores, é sempre importante bater na tecla de que nós, profissionais de saúde, precisamos colaborar no sentido de propagar informação para as mais diferentes classes sociais e, dessa maneira, ajudar a reduzir o número de obesos no país.

Com a palavra, Dr. Mauro Fisberg

Com a palavra, Dr. Mauro Fisberg

Postado em Com a palavra Dr. Mauro por Aby Tosatti | Tags: