Sobre obesidade infantil

Sobre obesidade infantil
31 de março de 2016
Dra. Elza Daniel de Mello

Dra. Elza Daniel de Mello

Confira entrevista com a pediatra e nutróloga Elza Daniel de Mello, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Nas últimas décadas, nos deparamos com a elevação dos casos de obesidade infantil. Apesar das inúmeras estratégias para frear a situação, ainda é muito complicado interromper essa verdadeira epidemia.

Para falar sobre o assunto convidamos Elza Daniel de Mello, pediatra e nutróloga com área de atuação em nutrologia e gastroenterologia pediátrica. Professora Associada do Curso de Medicina e Programa de Pós-graduação da Criança e do Adolescente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora da Unidade de Gastroenterologia e Hepatologia Pediátrica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Veja, a seguir, a entrevista exclusiva:

1 - Estamos em uma época em que a obesidade infantil apresenta números alarmantes e é mais prevalente do que outros problemas relacionados à alimentação, caso da desnutrição e da anemia. A senhora poderia comentar esse movimento?

Atualmente observa-se o que chamamos de “transição nutricional” nos países em desenvolvimento, isso significa que as crianças passaram de desnutridas para obesas. Entretanto muitas apresentam “fome oculta” que é a deficiência de vitaminas e minerais independente do estado nutricional. Notamos uma prevalência importante de anemia nessas crianças obesas.

A população infantil e os adolescentes com sobrepeso e obesidade também costumam apresentar um processo inflamatório que representa o início das comorbidades associadas ao excesso de peso, caso do diabetes, das doenças cardiovasculares e da esteatose (gordura) hepática.

2 - Na opinião da senhora quais são os principais motivos por trás do aumento da prevalência da obesidade na infância aqui no Brasil?

Muito difícil determinar um motivo, já que são vários. Temos a questão do ritmo de vida que pode determinar maior ingestão calórica. Um exemplo: para preparar alimentos saudáveis e dispor de frutas e verduras em casa é necessário ter tempo para comprá-los com maior frequência.

O aumento no consumo de calorias também se deve ao crescimento do tamanho das porções que quase nunca é proporcional ao valor nutricional.

Outro fator que colabora é a exposição de produtos calóricos nos supermercados, o que induz a compra, assim como as propagandas.

E, para classes menos favorecidas, o fato de poder comprar lanche na cantina da escola pode ser uma questão de “status”.

Por falar em cantinas escolares, muitas não oferecem alimentos saudáveis e quando isso acontece, geralmente, essas opções custam mais caro.

Ainda no ambiente escolar, podemos citar as escolas que fornecem merendas com excesso de calorias, o que já foi realmente necessário nos períodos em que a prevalência de desnutrição era maior no país. E também cabe mencionar a escassez das aulas de Educação física, pelo menos 2 vezes por semana, não considerando as atividades teóricas.

Por fim, vale salientar a falta de segurança que impede, muitas vezes, a prática corriqueira de atividades físicas. Muitas pessoas deixaram de frequentar parques e de ir caminhando para diversos lugares.

A situação econômica também pode impedir a realização de atividade física sistemática.

3 - Quais são os principais erros alimentares envolvidos na obesidade infantil?

O principal erro é a ingestão de mais calorias do que o corpo necessita ou em relação às que são gastas pela criança.

E não é difícil exagerar no total calórico diário. Até mesmo com preparações e alimentos considerados saudáveis é possível extrapolar. Ao repetir o prato de arroz com feijão e/ou comer 3 bananas por lanche, por exemplo.

4 - Quando a obesidade infantil é considerada como um problema de saúde? Toda criança que está acima do peso corre algum risco? 

Sim, toda criança que for classificada como sobrepeso ou obesidade está em risco de ser manter um adulto obeso. Quanto maior o tempo de obesidade, mais difícil será o seu controle. E o sobrepeso já favorece o estresse oxidativo que se reflete no processo inflamatório vascular.

5 - Quais são os principais riscos relacionados ao excesso de peso na infância?

Temos o risco de desenvolver doenças como a aterosclerose, a hipertensão arterial sistêmica, o diabetes e esteatose hepática que evolui para cirrose. Mas não podemos esquecer o risco psicológico, a diminuição de autoestima e mesmo o desenvolvimento de depressão.

 

6 - É possível prevenir a obesidade ainda na gestação?

Sim, a alimentação da gestante e o seu ganho de peso podem influenciar na ocorrência de diabete.

Se a gestante ganha pouco peso na gestação, o feto se adapta à menor oferta, o que favorece um maior estoque de gordura, além de aumentar o mecanismo da fome e diminuir o metabolismo.

Então se o bebê nascer pequeno e for alimentado de forma exagerada, ele pode desenvolver obesidade.

E se a gestante ganhar peso em excesso ela determinará o nascimento de um lactente grande, com maiores estoques de gordura.

Além disso, há evidências de que a qualidade, e não só a quantidade, da alimentação durante a gestação pode determinar obesidade na criança.

 

7 - E a amamentação ajuda a diminuir o risco para a obesidade? Qual seria o mecanismo de proteção?

Sim, a amamentação é excelente para diversas situações, e não poderia deixar de ser importante para prevenção da obesidade.

Criança que é amamentada tem a regulação de seu apetite pelo reflexo central e não pela distensão gástrica (com a fórmula infantil, sendo sempre o mesmo volume, seu consumo não induz a saciedade).

Além disso, se o lactente não for amamentado e for alimentado de forma errônea com leite de vaca, por exemplo, vai ingerir muita proteína, que pode induzir obesidade quando tiver mais idade.

 

8 - Qual a forma mais eficaz de se tratar a obesidade infantil? Há casos em que é preciso recorrer ao uso de medicação?

Infelizmente não temos uma fórmula mágica para tratar a obesidade, temos que diminuir a ingestão e aumentar o gasto energético.

Às vezes pode ser necessária alguma medicação, mas só depois de tentar o manejo inicial por pelo menos 1 ano, e quando houver comorbidades presentes.

A medicação não substitui o manejo inicial que pode ser realizado por diversos profissionais da saúde, e melhor ainda quando for de forma concomitante.

 

9 - Qual o papel da família durante o tratamento?

Quanto menor a criança mais importante é o papel da família. O sucesso e o fracasso muitas vezes dependem da postura dos pais. Será necessário que o estilo de vida da família seja mudado, que todos sejam mais ativos, que preparem alimentos mais saudáveis e menos calóricos, que não tenham em casa alimentos que não deveriam ser ingeridos no dia-a-dia.

 

10 - Por fim, o que a senhora espera para o futuro? Acredita que a obesidade logo entrará em declínio, especialmente devido ao montante de informações que chegam aos familiares?

Infelizmente não acho que entrará em declínio, pois depende da família, mas também de diversos setores. Deverá entrar em declínio quando tivermos uma cidade menos violenta, com alternativas de mobilidade para os pedestres e ciclistas.

Que nas escolas seja realmente estimulada a prática de educação física, ensinando o porquê e adaptando a atividade de acordo com as condições físicas; que as cantinas ofereçam alimentos saudáveis por um preço razoável. Que o preço de frutas e verduras também seja adequado. É mais barato um pacote de bolacha do que uma fruta em muitas ocasiões.

Que a indústria não faça propaganda de alimentos desnecessários e que também possam torná-los mais saudáveis (menos gordura trans e saturada, menos açúcar refinado) sem agregar custos.

Postado em Entrevistas por Aby Tosatti | Tags: