Uma pioneira da nutrição

Uma pioneira da nutrição
12 de abril de 2016
Dra. Olga Amâncio. O número de CRN é  CRN-3: 0017. Foto: Arquivo pessoal.

Dra. Olga Amâncio.
  CRN-3: 0017
Foto: Arquivo pessoal.

Confira entrevista com a doutora Olga Maria Amâncio, presidente da Sociedade Brasileira de alimentação e Nutrição

Para falar sobre a trajetória da nutrição no Brasil e ainda sobre os modismos que sempre rondam o tema alimentação, convidamos a nutricionista Olga Maria Amâncio, professora associada livre-docente do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente da Sociedade Brasileira de alimentação e Nutrição (SBAN).

  • Qual era o foco da nutrição quando a senhora começou a carreira?

O mercado de trabalho do nutricionista era, preponderantemente, os hospitais. Nas clínicas a função era verificar se a dieta prescrita chegava corretamente ao paciente.

Em 1970, no Hospital do Servidor Público Estadual a partir da atuação junto aos médicos, foi que o nutricionista passou a fazer parte da visita médica, realizada pelo chefe da clínica e pelos médicos.

A partir daí, se abriu esse caminho. E vale destacar a atuação de Elisabete Piason na pediatria, Ana Noriko na nefrologia, Vera Belo na Gastroenterologia e eu na cirurgia geral e moléstias infecciosas.

  • Como foi o começo de sua carreira dentro da Escola Paulista de Medicina? Poderia comentar como foi a introdução da nutrição em uma faculdade de medicina?

Eu fui para a pediatria da Escola Paulista de Medicina, em 1978, convidada pelo professor Fernando José de Nóbrega, com a incumbência de montar o Laboratório de Pesquisa e desenvolver as metodologias para os trabalhos de tese dos integrantes do departamento e que também atendia outros departamentos da escola. À época eu cursava o doutorado do Instituto de Ciências Biomédicas – USP, cuja defesa de tese ocorreu em 1980, passando a ser a primeira tese de doutorado de nutricionista do Brasil. Você vê que mais um pouco eu viro um mausoléu!!!!

Sem falsa modéstia, penso que tenha sido a seriedade e qualidade do trabalho que desenvolvi que levou um profissional não médico a ser respeitado em um Departamento de clínica, chegando a ser Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria e professora associada livre-docente, desse mesmo departamento.

  • Em quais áreas a senhora atua e poderia comentar a evolução nas duas últimas décadas?

Atuo na área de pesquisa, especificamente de cobre, ferro e zinco em condições fisiológicas e patológicas onde o papel desses minerais se mostra importante. A evolução na pesquisa é constante, principalmente pelo desenvolvimento de novas tecnologias que permite melhor conhecimento de fenômenos ainda não perfeitamente desvendados, que é a característica de ciências dinâmicas como a medicina e a nutrição.

  • Como presidente da SBAN, a senhora poderia comentar o papel dessa entidade, especialmente no que diz respeito aos modismos alimentares?

A partir de 2013 instituiu-se a “Declaração de Posicionamento" no qual a Sociedade, baseada na literatura científica, se posiciona frente a um assunto relevante da área, além da promoção de diversos eventos científicos. Esses tipos de ação estão mais voltados para os sócios (pesquisadores, profissionais de diferentes formação acadêmica, desde que trabalhem com alimentos ou nutrição, além de pós-graduandos, graduandos e sócios mantenedores).

Para o público as ações objetivam a informação e esclarecimento, por meio da mídia impressa, falada e eletrônica. Dentro em breve serão veiculados no YouTube vídeos, com no máximo 2 minutos de duração, que depois permanecerão no site da SBAN, justamente para melhor informar sobre assuntos veiculados erroneamente por leigos que se dizem entendidos em alimentos e nutrição.

  • No ano passado a SBAN publicou uma monografia sobre o consumo de leite. Poderia nos contar o motivo de o leite ter sido escolhido para essa publicação? Haverá outras publicações com esse perfil?

 Nós chamamos essas monografias de "Documentos Técnicos". O leite foi escolhido principalmente porque a lactose virou o demônio da vez. O objetivo foi esclarecer devidamente esse assunto e ressaltar as qualidades nutricionais do leite e produtos lácteos, primordialmente como fonte de cálcio, mineral indispensável para a formação adequada da densidade mineral óssea.

Os outros documentos técnicos lançados até agora foram: “Alimentação Variada e o Papel do Café da Manhã”; “Sal e Sódio no Contexto Alimentar Contemporâneo”; “A Hora do Lanche – Porque Essa Refeição É Tão Importante”.

E não vai parar por aí.

  • O que a senhora acha da “demonização” de determinados alimentos?

Acho que quem sai perdendo é a população que deixa de consumir alimentos importantes.

Vale lembrar que “pode-se comer de tudo, só tomando cuidado com a quantidade e frequência, principalmente dos alimentos mais calóricos”.

  • Qual a sua opinião sobre blogs que sugerem dietas sem o aval de nutricionistas?

Deveriam ser proibidos, afinal de contas trata-se de exercício ilegal da profissão.

  • A senhora poderia comentar o chamado “terrorismo nutricional”? Existe algum movimento para combatê-lo? 

Acho lastimável. Além do prejuízo nutricional, há -- o que é tão ruim quanto – o prejuízo emocional. Não sei de nenhum movimento para combatê-lo. Por enquanto penso que a informação seja o melhor caminho.

  • E, por fim, o que a senhora espera para o futuro?

Que aliado a um estilo de vida saudável, as pessoas aprendam a se alimentar corretamente, dando ouvidos aos especialistas no assunto. Em relação à ciência da Nutrição, espero que o governo, em curto espaço de tempo, possa voltar a destinar recursos adequados à pesquisa.

Postado em Entrevistas por Aby Tosatti | Tags: